domingo, 26 de abril de 2009

Alimentar no centro de BH é seguro?

Tire suas conclusões após ler a reportagem feita em estabelecimentos que fornecem lanches nas imediações da Faculdade Pitágoras.


Por Heberton Lopes

Chão sujo, falta de higiene e negligência. Essa é a realidade de muitas lanchonetes e bares do centro de Belo Horizonte. Apesar da intensa fiscalização que a Vigilância Sanitária tem feito, muitos proprietários ainda teimam em operar seus estabelecimentos fora das regras. A reportagem visitou várias lanchonetes localizadas no entorno da Faculdade Pitágoras, Campus Rio de Janeiro, com o intuito de verificar se as condições de higiene e manipulação dos alimentos estão de acordo com a lei. Desculpas esfarrapadas, sorrisos sem graça e ofensas pessoais foram as respostas de alguns proprietários durante as entrevistas.

A primeira lanchonete visitada foi a Delícia Pão de Queijo, localizada na avenida Augusto de Lima, esquina com rua São Paulo. A visão geral era de um lugar limpo e bem cuidado. Mas o atendimento não cumpriu todas as exigências da Vigilância Sanitária: o profissional que manipula os alimentos deve usar uniforme de cor clara, não pode utilizar adornos, os cabelos devem estar protegidos e não pode fazer o trabalho de caixa, pois o dinheiro transmite várias bactérias nocivas à saúde humana. Na Delícia Pão de Queijo, a pessoa que recebia o dinheiro era Dona Rosária, que é proprietária do local e trabalha há 15 anos no ramo alimentício. Ela foi flagrada pegando um salgado para um cliente. Segundo ela, isso só acontece quando nenhuma balconista está disponível e que são raras essas ocorrências. Além de manusear o dinheiro e pegar o salgado, a proprietária da lanchonete estava com os cabelos soltos e um óculos pendurado no pescoço por uma corda. Sua funcionária da cozinha trajava uniforme na cor vermelho escuro que, de acordo com as regras da Vigilância Sanitária, é ilegal. Dona Rosária informa que tem muito cuidado com a procedência e higiene dos alimentos e diz que é sistemática com o asseio, pois foi enfermeira por 30 anos.

A próxima lanchonete foi a Cantina da Empada, localizada na rua Guajajaras. O único desvio da lei foi a documentação do estabelecimento. A lanchonete não possui alvará de funcionamento, mas persiste em manter as portas abertas. De acordo com Laura, dona do local, a documentação para o alvará está em processo de regularização. Numa visão geral, foi possível perceber que a lanchonete cumpre com as medidas sanitárias determinadas pela lei. Seus funcionários usam roupas na cor clara, o chão estava limpo e os alimentos acondicionados na temperatura ideal. Quando perguntada se seus funcionários fizeram o curso de manipulação de alimentos, que é exigido pela Vigilância Sanitária, Laura deu um “sorriso amarelo” e disse que o curso não é mais obrigatório.

Também na rua Guajajaras, a Lanches Mais Sabor infringiu várias regras da Vigilância Sanitária. Além do local não ter ladrilhos, o balconista usava relógio, manuseava o dinheiro, estava com o cabelo desprotegido e falava em cima dos alimentos, que poderiam ser contaminados pela sua saliva.

Na quarta lanchonete visitada, a Pennsylvania, diferente das demais, a reportagem foi recebida pelo proprietário por insultos e palavrões. Ele não quis se identificar. O estabelecimento fica na rua São Paulo, esquina com Guajajaras. Do lado de fora do local, foi possível perceber que as regras determinadas pela lei não eram cumpridas. O dono do local trajava uniforme na cor escura, chinelos, e não usava protetor para os cabelos. As atendentes, também com uniforme na cor escura, usavam toucas, mas não protegiam totalmente os cabelos. Quando ele viu a reportagem colhendo dados a respeito do estabelecimento, alterou drasticamente sua postura, proferiu ofensas e ficou muito nervoso. A sujeira no chão, a gordura impregnada nos ladrilhos e a falta de preparo no manuseio dos alimentos pelas balconistas era evidente. Dois dias após o incidente, a reportagem procurou novamente o dono do estabelecimento, mas ele não estava presente.

Outro segmento no ramo de alimentação são os tradicionais bares do centro de Belo Horizonte. O Bar do Caçulinha, por exemplo, funciona em frente ao Minascentro, na rua Curitiba, há pelo menos 25 anos. Quem atendeu a reportagem foi José Domingues, que trabalha no estabelecimento há 10. Na vitrine, havia salgados e alguns tipos de tira-gosto. Ele era o único funcionário no local na hora da entrevista. Quando perguntado se manuseava o dinheiro e os alimentos, informou que era responsável somente pelo caixa. Cerca de dois minutos depois, José foi flagrado, sem proteção para os cabelos e após ter contato com dinheiro, pegando uma coxinha para uma cliente. José sorriu e disse que situações como essa são muito raras.

Para a universitária Graziella Giannini, 27, situações constrangedoras não são tão raras. Ela conta que foi tomar um refrigerante em uma lanchonete perto de sua faculdade e encontrou massa de salgado dentro do copo da bebida. Como já havia pago pelo produto, preferiu somente advertir a balconista e ir embora. “Falei para ela aprender a lavar copos”, diz Graziella, indignada com o incidente. Outra ocorrência foi na última semana, quando ela foi almoçar em um pequeno restaurante, localizado dentro de um posto de gasolina. “Pedi um PF [prato feito] no postinho e encontrei um fio de cabelo no prato. É desagradável, incômodo e nojento”, diz ela, que solicitou imediatamente a troca do produto.

A reportagem constatou que a maioria das lanchonetes e bares no entorno da Faculdade Pitágoras tem algum tipo de irregularidade sanitária ou fiscal. Na última semana, houve intensa fiscalização nos estabelecimentos da região. Várias lanchonetes e bares foram autuados e alguns até interditados, como é o caso do Bar da Lili, que era muito frequentado por estudantes das faculdades e cursinhos da região. O estudante de publicidade Luiz Augusto Amaral, 26, frequentava o local e conta que a cozinha do estabelecimento era muito suja e que havia somente um banheiro no local, usado por homens e mulheres. Nenhum funcionário do bar foi encontrado para falar sobre o caso.

A técnica em nutrição, Gabriela Burahem, 22, alerta que o consumidor deve ficar atento também à aparência e ao odor do alimento. “O lugar pode ser bonitinho, mas pode vender comida estragada ou fora do prazo de validade”, explica. Ela informa que a situação das lanchonetes e dos alimentos que são vendidos no centro de Belo Horizonte é calamitosa. Ela conta que vários colegas já passaram mal depois de comer salgados nesses locais. E reforça ainda que intoxicação alimentar pode levar ao óbito.

A assessoria de comunicação da Vigilância Sanitária de Belo Horizonte informa que o trabalho do órgão é realizado de maneira preventiva. Os fiscais vão aos estabelecimentos seguindo um cronograma ou quando são solicitados por meio de denúncias. Qualquer cidadão pode entrar em contato pelo telefone 156 para solicitar a vistoria de locais em que há a suspeita de que as regras não são cumpridas.


Comentário de Heberton Lopes:

Essa reportagem foi feita há um mês para a disciplina de Redação Jornalística IV - Jornalismo investigativo e grandes reportagens. Ela não foi editada para a web porque preferi mantê-la na íntegra.

Fazer essa reportagem não foi nada fácil. Achar um dono de lanchonete que quisesse falar foi muito difícil. A Vigilância Sanitária, por meio de sua assessoria, foi prestativa e concedeu todas as informações necessárias para o desenvolvimento deste trabalho.

Espero que com esse texto eu possa colaborar para que as pessoas observem mais os locais onde irão comer e que boicotem mesmo os estabelecimentos que não cumprem as regras determinadas pela Vigilância Sanitária.